ABIMÓVEL defende negociações coletivas e segurança jurídica para o emprego formal
O debate sobre redução de jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 está no centro da agenda pública. Para a ABIMÓVEL (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário), a relevância social do tema é inequívoca. O ponto decisivo, porém, está no seu escopo: uma alteração estrutural na forma de organizar o trabalho pode ser tanto um vetor de modernização quanto um choque de custo e desequilíbrios operacionais. Tudo, a depender das condições econômicas e produtivas sob as quais é implementada.
A indústria de móveis é um setor intensivo em mão de obra e altamente sensível a custo-hora, previsibilidade operacional e financiamento do consumo. Além disso, é composta majoritariamente por micro e pequenas empresas. Por isso, a entidade sustenta que o debate não deve ser conduzido como “sim ou não”, mas como uma pergunta técnica e verificável: em que condições a redução de jornada é sustentável sem reduzir competitividade e emprego formal?
A escala da decisão: quem é afetado e por quê
A cadeia do mobiliário reúne mais de 22,8 mil empresas, gera aproximadamente 287,2 mil empregos diretos e movimenta uma estrutura produtiva superior a R$ 92,1 bilhões por ano (dados atualizados de 2025). Esse universo é formado, em sua ampla maioria, por empresas de menor porte, que geralmente possuem menor capacidade de absorver variações abruptas de custo, reorganizar turnos de forma imediata ou financiar transições longas sem impacto no caixa.
Questões que não podem ser ignoradas
A ABIMÓVEL tem enfatizado três dimensões técnicas que precisam estar explícitas em qualquer proposta sobre a escala 6×1.
1) Estrutura tributária e limites de compensação para MPEs
Boa parte do setor opera sob o Simples Nacional, em que a tributação incide predominantemente sobre faturamento. Isso reduz o alcance de medidas compensatórias desenhadas exclusivamente via desoneração de folha. Quando o mecanismo de compensação não “chega” com força às micro e pequenas, a transição passa a ser desequilibrada: a regra muda para todos, mas a capacidade de adaptação não é igual.
2) Organização da produção e integração com o varejo
O mobiliário está conectado a uma dinâmica comercial específica: consumo de bens duráveis concentra decisão e fluxo em finais de semana, e a cadeia produtiva precisa responder a isso com planejamento, abastecimento e logística. Ao mesmo tempo, a indústria opera com processos contínuos — secagem de madeira, estufagem, linhas de acabamento — que dependem de estabilidade de programação. Uma alteração rígida nas escalas, sem desenho de transição e sem flexibilidade setorial, tende a gerar custo indireto, perda de eficiência e gargalos operacionais.
3) Produtividade e qualificação como condição de sustentabilidade
Em experiências internacionais, redução de jornada sustentável costuma ser consequência de avanços progressivos: tecnologia, qualificação, reorganização do trabalho e ganhos consistentes de produtividade. No Brasil, a produtividade por hora ainda não avançou no ritmo necessário para que uma mudança imediata seja neutra para custo e competitividade. E, no setor moveleiro, o recuo recente de produtividade, que foi de -8,4% em 2025, reforça a sensibilidade ao aumento do custo-hora sem contrapartida de eficiência.
O que a ABIMÓVEL propõe
Transição com metas, evidências e governança
A entidade defende que a discussão seja tratada com um horizonte realista de implementação: transição progressiva entre cinco e dez anos, acompanhada de políticas estruturadas que garantam competitividade, modernização e sustentabilidade para o setor moveleiro.
Fonte: Site ABIMOVEL
Postado em 20/03/2026